Saturday, February 28, 2009

Sátira

(Aproxima-se o Bota de Ouro do cais e, chegando ao Arrais do Inferno diz:)

 

        B.Ouro    Mas que barca é esta?

        Diabo      A barca mais bonita que encontrarás nestes arredores, meu jovem!

        B.Ouro    Ui! Deve ser deve! Então onde estão os jornalistas? E os meus fãs?

        Diabo     Os teus fãs? Eles nom querem saber de ti! Tu morreste. Os jornalistas nom iam morrer contigo.

        B.Ouro    Eu lá era tão feliz! Às vezes aconteciam-me coisas más i eu ficava mui triste. (diz quase a chorar:) Quero voltar…

        Diabo      Entrai pera a minha barca. Ainda serás mais feliz, meu querido.

        B.Ouro    Tinha tantas “amigas”… Pera onde vai a tua barca?

        Diabo      Pera a ilha perdida. Entrai, cá serás feliz, i então tu que gostas do calor como lá nas Maldivas ou em Cuba.

        B.Ouro    A minha mãe sempre me disse pera nom me portar mal pera nom ir pera o Inferno. Há por aqui outros barqueiros?

        Diabo      Há sim! Mas tu só entras cá. Samicas queiras entrar, nom?

        B.Ouro    Nom, entro aí. Vou-me à outra barca.

 

(Caminha à procura de outra barca, aproximando-se da Barca da Glória)

 

        B.Ouro    Hou da barca!

        Anjo        Que quereis?

        B.Ouro    Saber pera onde navegais.

        Anjo        Pera o Paraíso.

        B.Ouro    É esta a minha barca! Finalmente que a encontre. Andei tanto a pé! Lá na Terra é tudo mui mais fácil, tinha os meus Ferraris…

        Anjo        Nom, esta nom é a tua barca.

        B.Ouro    Mas porquê? Eu sô tão bom menino.

        Anjo        Então tu achas bem o que fizeste na tua vida? Por dia ganhavas mais do que um operário ganhava num ano!

        B.Ouro    Eles que arranjassem melhor emprego. Eu trabalhava tanto.

Anjo        Tu trabalhavas mui? Fazias um simples arranhão i já nom podias jogar. Nem sequer ajudas-te os que mais precisaram. Aproveitaste-te dos outros.

B.Ouro     Eu sô mui importante para a vida deles. Leixa-me entrar na tua barca.

Anjo        Aqui nom entrarás tu.

B.Ouro    Anda lá! Eu dou-te um autógrafo!

Anjo       Tu só  queres o teu bem. Nom ajudaste os outros co dinheiro que ganhavas.

B.Ouro    Se eu entrar na tua barca poderemos conhecer-nos melhor i…

        Anjo        Nom entras cá. Vai-te embora.

 

(O bota de Ouro dirige-se de novo à barca do Inferno)

 

Diabo     Sempre voltaste, minha doçura?

B.Ouro    O outro barqueiro nom me deixou embercar.

Diabo      Eu sempre disse pêra embarcares aqui. Cá terás tudo o que quiseres. Entra, entra, meu querido.

B.Ouro    Estou tão cansado. Espero que tenha tudo o que quero.

Diabo      Asinha, que se quer ir!

B.Ouro    Em boa hora!

 

(O Bota de Ouro geme suplicando pela mãe)

 

B.Ouro   Mãe! Mãezinha, ajude-me. Ai barca que és ardente!

 

Posted by Diana Cachada at 12:34:08 | Permalink | Comments (1) »

Tuesday, February 24, 2009

Máscara de Carnaval

Como te quero e admiro
Máscara de Carnaval…
Máscara querida,
Porque não és fingida…
Tu não mentes,
Dizes o que sentes,
És o que és…
Fica connosco
O ano inteiro;
Ensina o homem
A ser verdadeiro;
Tapa-lhe a cara
De máscara disfarçada,
Que faz do mundo actual,
Um terrível
E constante Carnaval.   

(Autor desconhecido)

Posted by Diana Cachada at 10:52:17 | Permalink | No Comments »

Friday, February 20, 2009

Texto descritivo - ” O meu quarto”

Acordei sobressaltada! O sol entrava pela frincha da janela e iluminava o meu quarto. Tinha sonhado outra vez com o rapaz lá da escola. O meu telemóvel começa a vibrar… Era ele, estava a telefonar-me. Recuso a chamada. Ele volta-me a telefonar:

- Olá!

Não lhe respondi. Desliguei a chamada e acabei por desligar o telemóvel também. Atiro-o para o tapete cor-de-laranja ao lado da cama.

A fotografia mais bonita reluzia na prateleira. Era eu e ele. Estávamos os dois abraçados e a sorrir. Era a altura mais feliz da minha vida até ao dia em que acabámos o namoro.

Eu ainda gostava dele… Ele era importante para mim. Deitei-me de novo na cama em que tinha o cheiro a fresco. Um cheiro a Natureza. Comecei a chorar. Recordava os momentos que tínhamos passado juntos. Aquele dia em que ele entrou na varanda do meu quarto para me dar um beijo de bom dia.

Silêncio. O silêncio invade o meu quarto. Levanto-me de repente e pouso os pés descalços no chão de madeira. Caminho em direcção à janela e observo o parque. Lindo… Era como uma festa da Natureza em que só existia felicidade.

Olho para a estante dos livros ao lado da janela. Tantos livros. Alguns nem tinha lido, outros não gostava, mas havia alguns que já tinha lido mais do que duas vezes.

Tudo no meu quarto parecia-me desconhecido. O armário no canto do quarto, a cómoda em frente à cama, até o meu puff cor-de-laranja perto da estante. De súbito, ouvi alguém a bater à porta da varanda. As cortinas não estavam corridas, por isso consegui ver quem era. Era ele. Também já me tinha visto e pedia-me para abrir a porta. Vou em direcção à porta e corro as cortinas. Sentei-me na minha cama. Não sabia o que fazer. Ele sentava-se no chão e esperava que eu abrisse a porta. Acabei por ceder:

- Porquê que desligas-te o telemóvel e porque é que não abrias a porta?

- Não me apeteceu.
        
Ele caminha pelo meu quarto e olha para a nossa fotografia. Pega nela e sorriu. Reparei que ele trazia uma rosa vermelha na mão e colocou-a na minha jarra de vidro em cima da cómoda. Sorri e corri para ele abraçando-o.

Posted by Diana Cachada at 21:02:44 | Permalink | No Comments »

Tuesday, February 10, 2009

Leitura nas aulas

“De encontro às chamas, os seus cabelos longos e lisos. O seu rosto: os olhos, os lábios. Olhou para mim. Eu vi os seus olhos parados
em mim. Estava diante de mim. Nunca a distância que nos separara havia sido tão curta. Eu não tinha braços para lhe estender. Eu só tinha os meus olhos para a abraçar. Estava diante de mim. Os nossos olhares eram atravessados pelo corpo fino de chamas que se levantavam no quarto. Ela disse a tua vida foi muito importante. Eu amava-a ainda. Ela disse deste a tua vida para entender que o amor é impossível. O amor é o sangue do sol dentro do sol. Algo dentro de qualquer coisa profunda. Ela disse deste a tua vida para entender que o amor é a solidão. Ela disse estavas certo desde o início, o amor é tudo o que existe. As suas palavras eram talvez as chamas. As suas palavras misturavam-se com as chamas. Eu não conseguia distinguir as suas palavras das chamas. Eu entendia as suas palavras porque entendia as chamas que envolviam a casa, que enchiam o quarto. Dentro de mim, havia chamas. Ela olhava-me. Ela era a mulher mais bonita do mundo. Ela existia dentro e fora de mim. Eu conseguia entender a razão porque morria devagar. O meu corpo, sob o lençol que ardia, tinha apodrecido completamente. Eu olhava para ela. Não vi quando, na janela, começou a nascer a primeira manhã depois do mês da noite. Eu olhava para ela. Os gatos atravessavam as chamas. Sei que, na sala, ardia a escrivaninha onde o meu pai escrevera sonetos, ardia o sofá grande onde a minha mãe se deitara tantas noites. Na cozinha, ardia o fogão onde a escrava Miriam se encostava a sofrer. No quarto onde estivéramos juntos, ardia a cama e o roupeiro. Na sala de baixo, ardia o chão onde as crianças foram felizes. Ardiam os retratos esquecidos no corredor. Em todo o lado haviam gatos que caminhavam altivos entre as chamas. Eu e ela olhávamo-nos. Os nossos olhares e as palavras eram atravessados pelas chamas. Ela era o seu rosto que era a pureza que existia em lagos distantes, água límpida através do fogo. Ela olhou muito para mim. Ela era o seu rosto de menina, a sua pele pura. Lembrei-me dos meus dedos sob a água limpa de uma fonte. Ela era a mulher mais bonita do mundo. Ela era a manhã sob o céu a iluminar de claridade. Ela disse amo-te. Ela, o seu rosto puro, diante de mim, as chamas, o fogo, disse amo-te. Como palavras impossíveis e como as únicas palavras. Eu sorri tanto. Fui feliz e, nesse momento, morri.”

Retirado do livro” Uma Casa na Escuridão” de José Luís Peixoto   

Posted by Diana Cachada at 17:20:36 | Permalink | Comments (2)

Friday, February 6, 2009

“Uma Casa na Escuridão” de José Luís Peixoto

Este é um livro espectacular! Aconselho toda a gente a lê-lo.

Aqui deixo um pequeno excerto do livro:

 

“ Então, fechei os olhos com força e fixei-me no que via. Esta era uma das coisas que fazia desde pequeno, que tinha descoberto por acaso e que imaginava ser eu a única pessoa a fazer no mundo. Fechava os olhos e via. Via o que se vê com os olhos fechados. (…) Isto é o que se vê quando fechamos os olhos e continuamos a ver: a cor negra e os pequenos seres de luz que a habitam. E não se consegue olhar fixamente nem para o negro, nem para a luz. Os pontos ou as linhas ou as figuras de luz fogem da atenção. O negro é tão absoluto, tão profundo e tão infinito que o olhar avança por ele sem encontrar um lugar onde possa deter-se. Mas, naquela noite, comecei a distinguir algo dentro desse negro.”

Posted by Diana Cachada at 18:44:04 | Permalink | No Comments »